Carta aberta aos homens

Carta aberta aos homens

Caros homens,

Tenho pensado bastante antes de escrever este texto. Não é simples endereçar uma conversa diretamente a vocês em um momento em que qualquer crítica é rapidamente lida como ataque. Ainda assim, diante dos acontecimentos recentes, e da repetição previsível de certas reações, permanecer em silêncio me pareceu mais confortável do que honesto.

Esta não é uma afronta. Também não é um desabafo genérico. Quero falar com um grupo específico: os homens que já entenderam que corresponsabilidade é um lugar ético de se habitar. Aqueles que dividem tarefas, que exercem paternidade ativa, que respeitam suas parceiras, que se consideram aliados. Homens que reconhecem que o mundo produz desigualdades estruturais e que isso não é natural.

🚨Mas há um ponto onde muitos de vocês param.

Vocês ajustam a vida privada, e isso importa, mas frequentemente não atravessam a fronteira entre o doméstico e o estrutural. Acreditam que viver de forma mais justa na própria casa é suficiente, e aqui está a tensão: o patriarcado não é sustentado apenas por comportamentos individuais agressivos, ele é sustentado por homens razoáveis que permanecem neutros quando o sistema os beneficia.

Eu sei que as engrenagens são complexas. São históricas, institucionais, econômicas. Mas a complexidade não explica tudo, existe também conforto, preservação de capital social. Existe o receio de perder pertencimento em grupos masculinos, e o cálculo silencioso de que “não vale a pena comprar essa briga”.

Conversei com meu marido sobre isso esta semana. Nós dividimos responsabilidades e carga mental de forma real. Construímos uma relação sem dominação, há parceria. Mas quando o assunto é atuação pública, institucional, política, ele entende que já faz o suficiente. Não se vê se posicionando. Não considera as redes um espaço legítimo. Não sente que precisa ir além (talvez até sinta mas não saiba como)… E é justamente aí que mora a minha inquietação.

Ser um bom parceiro não equivale a estar politicamente implicado.
Ser respeitoso em casa não altera estruturas que seguem concentrando poder fora dela.

Se a estrutura distribui poder majoritariamente aos homens, a responsabilidade por tensioná-la também precisa ser proporcional. Mulheres continuarão organizadas, produzindo conhecimento, disputando espaço. Mas é estruturalmente desigual esperar que apenas quem sofre a opressão conduza a transformação. E quando falo em ação, não falo apenas de gestos simbólicos.

Sim, interromper piadas misóginas importa.
Sim, dividir carga mental importa.
Sim, patrocinar mulheres importa.

Mas é preciso ir além do nível comportamental.

  • Significa questionar critérios de promoção que mantêm lideranças homogêneas — mesmo quando você é beneficiado por eles.
  • Significa disputar orçamento e prioridade estratégica para iniciativas de equidade.
  • Significa votar considerando impacto estrutural, não apenas interesse individual.
  • Significa sustentar conflito em espaços masculinos onde a violência é normalizada.
  • Significa abrir mão de vantagens silenciosas que parecem naturais porque sempre estiveram ali.

Neutralidade, em sistemas desiguais, é preservação. Se vocês já compreenderam que o mundo é injusto, o próximo passo não é concordar em silêncio, é aceitar algum custo. Custo de desconforto, de pertencimento, de privilégio. A inércia não é ausência de escolha, é uma escolha que mantém a estrutura funcionando exatamente como foi desenhada.

O sistema não se mantém apenas pelos homens violentos, ele se mantém, sobretudo, pelos homens bons que não atravessam a fronteira do conforto.

Leave a comment

Sou a Mari

Estudo e critico as formas como organizamos o mundo — e como essas estruturas atravessam gênero, relacionamentos, trabalho e infância.

Este é um espaço de reflexão crítica e de construção de outras possibilidades.