O patriarcado já não da mais para “desver”

Eu estou tentando escrever sobre o que aconteceu em Florianópolis, sobre o grupo de adolescentes que torturou e matou um cachorro (Orelha). Sobre outro grupo de jovens adultos que violentou coletivamente uma menina no Rio, e pela primeira vez em muito tempo diante de um tema tão duro, a única coisa honesta que consigo dizer é: eu não sei nem por onde começar.

Não sei como organizar isso em uma narrativa limpa, não sei qual estatística usar, não sei qual dado citar para que a gente consiga suportar olhar para o que aconteceu sem desviar. Porque tudo isso não é nenhuma grande supresa, em nenhum momento eu pensei “Nossa, como isso tudo aconteceu ‘do nada’”?! O que existe é uma sensação extremamente incomoda de reconhecer um padrão. A repetição de uma lógica que já vimos antes, a assinatura de um modelo que continua operando, e é justamente isso que torna tudo ainda mais perturbador…

Existe algo que conecta esses episódios, e não é apenas “juventude inconsequente”, “falta de limites” ou “casos isolados”, essa explicação é confortável demais. Funciona como um sedativo moral, que permite que a sociedade respire aliviada e siga adiante. Mas eu não consigo. O que eu vejo é a masculinidade em performance extrema.

Vejo a masculinidade hegemônica sendo levada até o limite da sua própria lógica: dominação como prova de valor, insensibilidade como força, objetificação como prática banal, poder como validação entre pares. Não são monstros mitológicos, são meninos socializados dentro de um roteiro muito específico – e conhecido. Um roteiro que ensina que sentir é fraqueza, que empatia é exagero e que vulnerabilidade é um risco. Um roteiro que ensina que o corpo do outro pode virar território de teste, seja o corpo de um animal, seja o corpo de uma menina. E quando esses meninos crescem em ambientes de privilégio, com sobrenomes conhecidos, boas escolas, redes de proteção, o problema deixa de caber na narrativa fácil da marginalidade. A violência não pode mais ser terceirizada para “o outro”, ela passa a revelar algo estrutural: não é um desvio do sistema, mas sim seu produto direto.

O patriarcado tardio não precisa mais formar apenas o provedor silencioso, ele exige performance constante. Exige virilidade exibida, coragem encenada, domínio reafirmado. Ele não tolera fragilidade e quando ela aparece, precisa ser esmagada. Muitas vezes, esmagando alguém junto, se for preciso. Quando um grupo violenta coletivamente uma menina, é também uma rito distorcido de pertencimento. Quando um grupo tortura um animal, é um ensaio de desumanização, é a prática de transformar o outro em objeto para consolidar identidade.

Sabemos muito bem onde isso começa. Começa muito antes do ato extremo. Começa nas piadas que ninguém interrompe, nos grupos fechados onde a brutalidade vira entretenimento, na romantização da frieza. Na ausência quase completa de alfabetização emocional para meninos. Na opressão extrema de características essenciais que afastam os homens de tudo que nos torna humanos. Na ideia de que masculinidade é sinônimo de poder sobre algo ou alguém.

Como se já não bastasse, há algo ainda mais desconfortável: esses casos envolvem jovens de famílias economicamente privilegiadas. Isso importa porque desmonta a fantasia de que violência é fruto apenas de carência material, “falta de estudo” ou estrutura. Aqui não estamos falando de ausência de oportunidade, mas sim do excesso de autorização simbólica – como se certas pessoas estivessem acima das consequências. De uma sensação difusa de que nada os alcança, de que reputações importam mais do que as vítimas.

Eu não sei como escrever isso sem parecer dura, mas talvez dureza seja necessária aqui. Enquanto tratarmos esses episódios como aberrações isoladas, continuaremos produzindo o mesmo padrão. A masculinidade hegemônica não implode sozinha, ela é reforçada diariamente por silêncio, por cumplicidade, por medo de confronto. Não estou falando de “todos os homens”, essa defesa automática já virou mecanismo de fuga. Estou falando de um modelo que ainda organiza expectativas, recompensas e pertencimento. Um modelo que precisa ser nomeado para poder ser transformado.

O que aconteceu nestes casos horrendos não é apenas sobre crime, mas sim sobre formação, sobre cultura, sobre o tipo de homem que estamos produzindo e criando, inclusive nas famílias que se consideram “bem estruturadas”. Se isso tudo não os fizer olhar para todos estes casos reconhecendo uma estrutura Patriarcal violenta, que para mudar não será tão simples quanto “endurecer penas”, então estaremos insistindo em soluções fáceis e superficiais para problemas profundos.

Sem revisão cultural, sem responsabilização e sem transformação na forma como socializamos meninos, continuaremos reagindo a tragédias que nós mesmos ajudamos a construir. Porque essa responsa, sim, você também carrega.

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Sou a Mari

Estudo e critico as formas como organizamos o mundo — e como essas estruturas atravessam gênero, relacionamentos, trabalho e infância.

Este é um espaço de reflexão crítica e de construção de outras possibilidades.