No caso recente em que um homem assassinou os dois filhos, tirou a própria vida e deixou uma carta culpando a mulher, o que se viu foi uma tentativa explícita de deslocamento de autoria. A violência foi enquadrada como reação, ele não teria escolhido; teria sido levado.
A crítica feminista é consistente ao demonstrar como essa operação preserva a hierarquia no patriarcado. Simone de Beauvoir já apontava a construção do feminino como lugar de projeção das tensões masculinas. O homem foi historicamente constituído como o Sujeito: o padrão, o neutro, o universal. A mulher, por sua vez, foi construída como alteridade: aquilo que é definido em relação ao homem, e não por si. Isso cria uma assimetria estrutural, onde o homem é medida; a mulher é reflexo, complemento, explicação.
Se o homem ocupa o lugar de sujeito universal, ele tende a externalizar seus conflitos para fora de si. A mulher, enquanto “Outro”, torna-se o espaço simbólico onde ele deposita suas frustrações, medos, fracassos e contradições. Em vez de reconhecer um conflito como interno, falha, limite, indecisão, ele o reconstrói como algo provocado por ela. O padrão se repete: o homem age, mas a mulher explica.
👉🏼👉🏼👉🏼E aqui está o núcleo do problema e a maior contradição:
o agressor mantém a condição de sujeito pleno quando exerce poder, mas é tratado como sujeito diminuído quando precisa responder por seus atos! 🤯
Ele é adulto para decidir, mas frágil demais para ser responsabilizado. É agente quando controla, mas supostamente incapaz quando destrói. Essa assimetria é política!!
Se reconhecemos homens como autônomos (com direitos, voz e autoridade social) precisamos sustentar a consequência lógica: autonomia implica responsabilidade integral. Qualquer tentativa de dividir essa responsabilidade com a mulher é manutenção da estrutura patriarcal.








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