Ideologia, rock&roll e o caos

Não é difícil encontrar exemplos. Eles chegam todos os dias, organizados em notificações: guerras, feminicídios, exploração sexual, colapsos ambientais, escândalos envolvendo elites políticas e econômicas. A sensação é de excesso, não apenas de violência, mas de uma espécie de falência moral difusa, como se algo tivesse se rompido no modo como o mundo se sustenta.

Diante disso, cresce uma necessidade quase instintiva de reorganização: encontrar culpados, estabelecer causalidades, restaurar algum tipo de coerência. É nesse ponto que narrativas morais simplificadas ganham força. A ideia de que o mal será punido, de que existe uma justiça, ainda que tardia, capaz de reequilibrar o mundo, funciona menos como descrição da realidade e mais como condição de suportabilidade.

A música Nightmare, do Avenged Sevenfold, encena exatamente essa lógica. Há um sujeito, há culpa, há punição. O sofrimento não é aleatório, ele é merecido. O caos é domesticado por uma estrutura moral clara: alguém fez algo errado, e agora paga por isso. Essa estrutura não é trivial, ela responde a uma necessidade profunda de organização simbólica. Sem ela, o sofrimento se torna insuportável porque perde sentido. A punição, nesse contexto, não é apenas um desfecho, é uma promessa de inteligibilidade.

O problema é que a realidade contemporânea não oferece esse tipo de fechamento.

Não há proporcionalidade entre ação e consequência. Não há garantia de punição. Não há sequer clareza sobre onde começa ou termina a responsabilidade. Os mesmos sistemas que produzem violência são também aqueles que a absorvem, a redistribuem e, muitas vezes, a invisibilizam. O mal não aparece como exceção, mas como engrenagem.

É aqui que a ideologia opera com mais eficácia, não como uma mentira direta, mas como uma forma de preenchimento. Como aponta Marilena Chaui, a ideologia atua justamente naquilo que não se mostra, no que precisa permanecer implícito para que a realidade continue sendo percebida como coerente. Ela não nega o sofrimento; ela o reorganiza em narrativas que o tornam tolerável… ou pior, que o tornem natural.

A crença de que “cada um colhe o que planta”, por exemplo, não se sustenta empiricamente quando confrontada com a realidade concreta, mas persiste como operador simbólico. Ela desloca a violência estrutural para o campo da responsabilidade individual, preservando a aparência de justiça onde, na prática, há assimetria. Nesse sentido, o que está em crise não é apenas o mundo, mas as formas pelas quais ele era explicado.

As grandes narrativas, sejam elas religiosas, morais ou até mesmo certas versões do progresso, ofereciam uma promessa de ordenação. Mesmo quando não se realizavam plenamente, funcionavam como horizonte. Hoje, essas estruturas estão tensionadas, fragmentadas ou esvaziadas. O que emerge no lugar não é necessariamente uma nova forma de organização, mas uma exposição mais crua das contradições.

Isso produz uma sensação de caos que, embora frequentemente interpretada como agravamento da realidade, pode ser lida também como perda de mediação. O que antes era filtrado, hoje se apresenta de forma mais direta. O que antes era justificado, hoje aparece como arbitrário. O que antes parecia exceção, revela-se padrão.

Mas essa exposição não leva automaticamente à transformação.

Pelo contrário, ela pode gerar reações regressivas. A ascensão de discursos autoritários e moralizantes funcionam como uma tentativa de restaurar rapidamente estruturas de sentido. Diante da complexidade e da ambiguidade, reaparece o apelo por ordem, punição e clareza moral. Identificar inimigos, simplificar conflitos, reafirmar fronteiras: tudo isso oferece alívio diante de um mundo que deixou de ser inteligível.

O risco, nesse movimento, é substituir a análise pela necessidade de fechamento.

Porque o que incomoda não é apenas a violência em si, mas o fato de que ela não pode mais ser facilmente explicada, delimitada ou resolvida dentro das categorias que herdamos. Talvez o verdadeiro pesadelo não seja o aumento do mal, mas a nossa insistência em organizá-lo para que ele caiba em alguma lógica suportável. Há um limite em que essa organização deixa de esclarecer e passa a encobrir. Romper com isso não nos lança ao caos, mas sim nos retira da ilusão de que ele poderia ser evitado por meio de explicações simples.

E é só a partir daí que alguma forma de lucidez se torna possível. Ouvir Nightmare, do Avenged Sevenfold, é bom, mas é Rage Against the Machine que faz a gente sair do lugar e nos movimentar – sem precisarmos (finalmente) de uma ideologia. Será que conseguimos?

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Sou a Mari

Estudo e critico as formas como organizamos o mundo — e como essas estruturas atravessam gênero, relacionamentos, trabalho e infância.

Este é um espaço de reflexão crítica e de construção de outras possibilidades.