Querida mulher,
Estava eu pensando com meus botões neste fim de semana enquanto curtia um sábado em família no… shopping. Eu tenho uma filha pequena de 1 ano e 4 meses que ama correr e tem uma energia inesgotável. Então estamos sempre tentando inventar coisas diferentes para fazer pela cidade. Acho que qualquer pessoa que já tentou simplesmente existir com uma criança em um espaço urbano brasileiro sabe do que estou falando: sair de casa já é, por si só, um pequeno projeto logístico.
Para começar, quase sempre dependemos de algum meio de transporte, ônibus, carro, aplicativo porque caminhar pela cidade é frequentemente inviável. Calçadas estreitas, irregulares, ocupadas por postes, buracos ou carros. Ruas pensadas para a fluidez dos automóveis, não para o corpo humano. Poucas árvores. Pouca sombra. Pouca permanência. Você sai de casa e rapidamente se pergunta se ter saído foi mesmo uma boa ideia. Quando finalmente chega a algum lugar de convívio, a experiência tampouco melhora muito. Falta estacionamento. Falta infraestrutura básica. Falta diversidade de opções. Em muitas cidades, existem um ou dois espaços considerados “bons”, que acabam concentrando todo mundo, e mesmo assim são limitados.
Um pequeno pedaço de verde disputa espaço com quilômetros de concreto, trânsito, barulho e ausência de planejamento urbano. Diante disso, muitas famílias acabam recorrendo ao shopping center. E o próprio nome do lugar já revela sua função primordial: consumir. O shopping é climatizado, seguro, previsível. Mas também é um espaço cuja lógica é simples: você permanece ali na medida em que consome.
E há outra coisa que se torna evidente quando observamos com mais atenção: quem frequenta esses lugares? Quem não frequenta? Quem parece deslocado? Quem parece à vontade? Rapidamente percebemos que pessoas negras não estão ali. Muitas famílias não estão ali. Muitas pessoas sequer conseguem acessar esses espaços. E, paradoxalmente, mesmo quando acessam, muitas vezes não encontram infraestrutura adequada para crianças, idosos ou pessoas com deficiência. Em vários lugares, crianças são tratadas quase como um inconveniente urbano.
Tudo isso me fez lembrar do livro Se a cidade fosse nossa, da pesquisadora e urbanista Joyce Birth. A autora nos convida a fazer uma pergunta aparentemente simples, mas profundamente política: quem constrói as cidades e para quem elas são construídas? Ela parte de alguns conceitos importantes no campo dos estudos urbanos e sociais.
Primeiro, a ideia de que a cidade nunca é neutra. O urbanismo reflete relações de poder. Ruas, transportes, iluminação, parques, moradia e mobilidade são organizados a partir de interesses econômicos e políticos específicos. A forma da cidade materializa desigualdades sociais. Segundo, Birth recupera uma discussão clássica da sociologia urbana: o direito à cidade, conceito originalmente formulado por Henri Lefebvre. O direito à cidade não significa apenas poder circular por ela, mas participar de sua produção, usufruir de seus espaços e influenciar suas decisões.
Mas a autora vai além e traz uma crítica interseccional: ela mostra como raça, gênero e classe estruturam profundamente o espaço urbano. Historicamente, as cidades foram planejadas majoritariamente por homens, e por homens de determinadas classes sociais. Isso tem consequências práticas. A mobilidade urbana, por exemplo, costuma ser pensada a partir de trajetos lineares casa-trabalho. Só que a vida real, especialmente para mulheres, raramente funciona assim. Como ao nosso gênero hoje foi entregue toda a responsabilidade das esferas públicas e privadas, temos que fazer trajetos múltiplos: levar filhos à escola, cuidar de parentes, fazer compras, trabalhar, resolver burocracias. Trabalhos de cuidado e manutenção que raramente são de responsabilidade masculina, então porque eles deveriam levá-los em consideração?
Quando o planejamento urbano ignora essas dinâmicas, ele torna a vida cotidiana mais difícil. Há também a questão da segurança. Mulheres vivem a cidade de forma radicalmente diferente. Iluminação pública, transporte noturno, visibilidade nas ruas e ocupação dos espaços influenciam diretamente a possibilidade de circulação feminina. E há ainda a dimensão racial.
No Brasil, como demonstram inúmeros estudos de urbanismo e geografia social, a segregação espacial tem cor. Bairros com mais infraestrutura, áreas verdes e serviços concentram populações mais brancas e de maior renda. Já comunidades periféricas enfrentam ausência de saneamento, menos transporte público, menos equipamentos urbanos e maior exposição a riscos ambientais. Isso é o que pesquisadores chamam de racismo ambiental: quando populações racializadas são desproporcionalmente expostas a poluição, enchentes, falta de infraestrutura e precariedade urbana. Além da questão da (falta de) segurança – onde um uma pessoa que corria para pegar um ônibus foi assassinada por sem negra, onde uma médica em seu veículo foi “confundida” com “bandido” e assassinada… ambos pela própria polícia (Estado).
O resultado disso tudo é uma cidade profundamente desigual. Uma cidade onde alguns corpos circulam com naturalidade, enquanto outros precisam constantemente negociar sua presença. E aqui entra uma provocação importante: cidades também são estruturas do que podemos chamar de capitalismo patriarcal.
Elas organizam o espaço de forma a maximizar circulação de mercadorias, produtividade e valorização imobiliária. O tempo da cidade é o tempo do trabalho. O espaço da cidade é o espaço do capital. Por isso tantas cidades são hostis ao cuidado, à infância, ao descanso e à convivência comunitária. Parques são poucos. Praças são negligenciadas. Bancos somem das ruas. Árvores desaparecem. Brincar na rua vira exceção. Permanecer em um espaço público sem consumir se torna quase um ato de resistência.
Então eu volto à pergunta.
Querida mulher…
E, sobretudo, querida mulher negra… Se as cidades fossem construídas por nós — e para todos — como elas seriam?







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