Já ouvi muitas vezes que sou “muito corajosa”.
Corajosa por falar, por escrever, por provocar debates que muita gente prefere evitar. Mas ontem fiz algo que talvez não pareça muito corajoso: apaguei um post que estava viralizando. Ele continha as informações de algumas contas de instagram que disseminam conteúdos de violência e ódio contra mulheres, onde eu dizia:
“👉🏼 Utilidade pública: estes são exemplos de perfis que produzem ou amplificam conteúdos associados ao universo redpill e discursos misóginos. Vejam quais pessoas que você conhece que seguem esses caras, aí fica ao seu critério: cada pessoa decide como lidar com isso. #misoginiaécrime
FYI: Sim, eu avaliei o custo x benefício de fazer essa publicação, porque existe, sim, o risco de acabar amplificando perfis que vivem justamente de atenção e engajamento. Esse foi um ponto que considerei com cuidado antes de postar. Mas existe um outro risco que me parece maior: o da invisibilidade do problema. Movimentos que produzem violência simbólica e normalizam misoginia costumam crescer justamente na penumbra…. circulando em bolhas, grupos fechados e algoritmos que empurram esse conteúdo para jovens homens sem que o restante da sociedade sequer perceba o que está acontecendo.
Enquanto tratamos como algo marginal ou irrelevante, essas estruturas crescem. Quando passam a ser nomeadas, analisadas e expostas, o jogo muda.
Minha intenção ao citar essas contas não é promover ninguém, mas sim tornar visível uma rede de produção de conteúdo que influencia milhares de homens e meninos, muitas vezes normalizando desprezo, hostilidade e desumanização de mulheres.“
E, enquanto clicava em “excluir”, uma pergunta inevitável me veio à cabeça:
será que sou mesmo corajosa – ou, na verdade, apenas um pouco ingênua?
Existem muitos homens que são aliados muito importantes na luta contra o patriarcado. Homens que descobriram outras formas de ser homem, outras masculinidades muito mais saudáveis e sustentáveis – para eles e para o mundo. Homens que me ajudam, me ouvem e se colocam ao meu lado. Porém, existem muitos outros que devem ser combatidos. Muitos que lucram através de conteúdo de ódio às mulheres, incitando comportamentos manipuladores e violentos, começando trends agressivas – como a mais recente no tiktok “se ela disser não”. Essa trend mostra homens treinamento pedir a mulher em casamento, mas que se ela disser não eles a atacam. Chutes, socos e até utilizam algumas armas nos vídeos.
O número crescente de feminicídios, advindos de um “Patriarcado tardio”, onde estes homens percebendo que o modelo antigo de poder já não funciona como antes, reagem de forma defensiva – onde a melhor defesa é o melhor ataque. Intensificam assim as agressões, a violência, o controle, uma forma extrema e amplificada de “ser homem” que abusa, violenta e mata mulheres e crianças. E segundo o lema redpill, “não se arrependem de nada”.
Com toda essa camada violenta presente em tantos lugares, obviamente eu não sou exceção. Já recebi diversos comentários e mensagens de ódio, alguns bem previsíveis como “já lavou uma louça hoje?”, outros sobre forma de ameaça real a minha integridade física. É aí que mora meu pensamento quando me pergunto: sou corajosa ou ingênua? Esse limbo de sentimentos, que me faz sentir um medo enorme e ao mesmo tempo muita raiva por ele cumprir exatamente o seu papel: o medo é a mais antiga tecnologia de controle do patriarcado. Quantas coisas nós mulheres não deixamos de fazer por medo? A lista é imensa, e ontem foi mais uma coisa que deixei de fazer: excluí uma postagem importante e que ficou viral por puro medo.
Mas também preciso dizer a verdade inteira: o medo não é sinal de fraqueza. O medo, neste contexto, é evidência de realidade. Ele não nasce do nada, não é exagero, não é histeria, não é “coisa da minha cabeça”. Ele nasce de uma estrutura que pune mulheres que falam. Que pune mulheres que nomeiam. Que pune mulheres que se recusam a sorrir, a amenizar, a pedagogizar o absurdo com delicadeza suficiente para não ferir egos masculinos.
Então talvez a pergunta não seja exatamente se sou corajosa ou ingênua, talvez a pergunta mais honesta seja: o que significa seguir falando mesmo sabendo o preço? O que significa continuar escrevendo quando você entende perfeitamente o risco, mas também entende o risco ainda maior de se calar? Porque é isso que o patriarcado quer, no fim. Não apenas nos ferir, não apenas nos ameaçar, mas nos disciplinar. Nos reduzir. Nos ensinar, pela intimidação, qual é o nosso “lugar”. Nos convencer de que a liberdade custa caro demais. Nos convencer de que a exposição não vale a pena. Nos convencer de que a autopreservação exige silêncio.
E esse é um ponto importante: eu ter apagado a postagem por medo não significa que eles venceram moralmente. Significa apenas que a violência funciona. Funciona porque foi desenhada para funcionar. Funciona porque mulheres sabem, desde cedo, ler risco no ambiente, antecipar reação, recalcular rota, medir tom, vigiar corpo, rever palavra, segurar impulso. É exaustivo, e profundamente político.
Por isso, quando uma mulher se cala, quase nunca é porque “não tinha argumento”. Muitas vezes é porque entendeu perfeitamente o tamanho da máquina contra ela. E quando uma mulher fala, isso também não deveria ser romantizado como se bravura fosse um traço individual, quase heroico. Falar, muitas vezes, só é possível porque outras vieram antes, porque há alguma rede, porque ainda resta energia, porque a indignação naquele dia falou mais alto que o medo. Mas nenhuma dessas condições é garantida. Nenhuma.
Eu continuo acreditando que nomear esses homens como problema público é necessário. Continuo acreditando que expor redes de misoginia, de manipulação e de violência simbólica é parte da luta. Continuo acreditando que não se combate esse fenômeno fingindo que ele é só “polêmica de internet”, “personagem”, “exagero feminista” ou “liberdade de expressão”. Não é. Há ideias produzindo prática. Há conteúdo fabricando cultura. E cultura, quando normaliza o desprezo às mulheres, não termina na tela.
Mas talvez eu precise também recusar outra armadilha: a de achar que resistência só vale quando é destemida. Não. Às vezes resistir é falar. Às vezes é apagar e reorganizar a estratégia. Às vezes é pedir ajuda. Às vezes é documentar. Às vezes é recuar para continuar viva, inteira, lúcida. O patriarcado adora chamar de fraqueza tudo aquilo que, na verdade, é humano. Então não, eu não tenho uma resposta simples. Não sei se sou corajosa ou ingênua. Talvez eu seja uma mulher tentando existir politicamente num mundo que ainda responde com ódio quando somos lúcidas demais. Talvez eu seja apenas alguém cansada de ver o medo cumprir tão bem sua função histórica. Talvez eu seja ambas as coisas em dias diferentes.
O que eu sei é que não aceito normalizar isso. Não aceito que mulheres tenham de escolher, o tempo todo, entre voz e segurança. Não aceito que denunciar a misoginia organizada venha acompanhada da expectativa de que suportemos tudo caladas, sozinhas. Eu sinto medo. Eu sinto raiva. E ainda assim sigo tentando.







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