Homens, quem vocês eram antes do mundo ditar quem vocês deveriam ser?

Em meio às minhas leituras e estudos, também tenho tido conversas mais francas com homens próximos a mim. Recentemente me deparei com algo surpreendente em duas dessas conversas, com dois amigos que sequer se conhecem, mas compartilham algo que considerei, no mínimo, curioso: ambos não se encaixam na caixinha da masculinidade hegemônica. Machismo, controle, dominância, performance a qualquer custo, autocentramento. Ao aprofundar as perguntas, percebi que os dois passaram por experiências muito parecidas em suas vidas:

Os dois enfrentaram, em determinado momento, algo profundamente traumático, um ponto de ruptura. Um deles se cobrava tanto para dar conta de tudo sozinho, performar e expandir, que acabou desenvolvendo um burnout, acompanhado de ansiedade e crises de pânico. O outro vivenciou uma perda simbólica do pai, que sofreu um AVC, justamente enquanto construía a própria vida com sua ajuda. Estava no meio da faculdade e, por conta do ocorrido, ficou sem recursos para bancar os estudos e se sustentar. Foi obrigado a ressignificar a forma como vivia, além de elaborar um luto em meio a tudo isso, ainda muito jovem.

Após esses eventos quando ambos buscaram ajuda, ou foram levados a isso pelas circunstâncias, por meio da psicoterapia ressignificaram muitas partes de suas vidas. Os dois relataram que uma parte deles “morreu” nesse processo; algo precisou ficar para trás na forma como viviam. A partir daí, passaram a adotar uma postura muito mais ligada ao amor próprio e ao cuidado, e esse movimento foi transformando suas identidades masculinas. Disseram que antes eram “homens padrão” e que, hoje depois de tudo, percebem o quanto se tornaram mais colaborativos, sensíveis e cuidadosos. Não sentem mais necessidade de controle ou dominação. Ambos afirmam que seu olhar sobre o mundo se expandiu após essa experiência.

Refletindo sobre esses relatos, à luz das leituras que vinha fazendo, cheguei a uma hipótese: será que, para que homens desenvolvam outras formas de masculinidade, a “morte” de parte de suas identidades seria quase necessária?

Passei as últimas semanas com essa ideia me acompanhando, essa noção de morte, de trauma, de rupturas tão difíceis. Seria esse o veredito? Mas então uma leitura nada óbvia cruzou meu caminho e mudou o rumo desses pensamentos. Qual foi? Se você pensou em The Will to Change, de Bell Hooks, acertou. Bell fala sobre amor. Afirma que, para que homens realmente mudem e conheçam o amor, precisam abdicar das características associadas à masculinidade padrão: poder, controle, dominância. Precisam escolher, como ela escreve, “a vida ao invés da morte”. E foi nesse ponto que algo se reorganizou em mim:

Nunca foi sobre a morte de uma parte da identidade de meus amigos que possibilitou reflexão, mudança e ressignificação de suas masculinidades. Talvez tenha sido exatamente o contrário. Não se tratava de eliminar partes de quem eram, mas de permitir que partes de si mesmos que foram sufocadas, reprimidas, desautorizadas ao longo de anos pudessem finalmente emergir.

O que parecia morte talvez não fosse a queda de uma camada, nem a perda de uma máscara. Talvez tenha sido uma ampliação, uma expansão da própria identidade.

Quando eles falam que uma parte “morreu”, talvez estejam nomeando a sensação de ruptura com um modo restrito de existir. Mas, na prática, o que ocorreu não foi redução, foi integração. Partes que haviam sido reprimidas, desautorizadas ou consideradas incompatíveis com o que se espera de um homem puderam finalmente encontrar espaço. Não se tornaram menos do que eram, tornaram-se mais.

O que renasceu não foi algo novo, foi algo antigo. Partes de suas identidades que haviam sido silenciadas desde a infância. Quando meninos, aprendem cedo demais o que podem ou não podem sentir, demonstrar ou desejar ser. Suas experiências traumáticas não criaram sensibilidade; apenas a tornaram inadiável. Ao serem atravessados pela ruptura, foram forçados a se perguntar: quem eu realmente sou? Quem eu sou para os outros? Quem eu sou para o mundo?

Nessa jornada de descobertas, reflexões e investigações em terapia, pode ter sido plantada, quase sem que percebessem, uma semente no chão árido de suas masculinidades hegemônicas: o amor próprio. Um amor que não é o egocentrismo frequentemente associado aos homens (já conhecido por eles), mas o amor como cuidado, como acolhimento real, como reconhecimento de seus sentimentos mais duros e verdadeiros. Esses homens estavam profundamente machucados mas, ao invés de ignorarem suas feridas, decidiram curá-las.

Nesse processo extremamente difícil e ao mesmo tempo bonito, por meio desse amor e desse cuidado, parte de suas identidades pôde renascer. O solo árido de suas masculinidades começou a ser novamente regado depois de tantos anos. Eles reencontraram partes de si que haviam sido mortas, oprimidas ou ignoradas ao longo da vida, e que agora encontravam chão fértil, força e espaço para crescerem novamente. Estavam, enfim, inteiros — assim como nasceram, assim como quando eram crianças. 

Apesar de terem sido processos profundamente doloridos, hoje se sentem mais livres. Muito mais conectados. Muito mais humanos… O que isso significa realmente? 

Passei tempo demais acreditando que era preciso destruir algo para mudar, quando talvez, o que realmente precisamos seja cuidar para que algo possa renascer. A transformação das masculinidades não exige destruição identitária, mas expansão identitária — por meio da reintegração de aspectos humanos reprimidos pela socialização patriarcal. Homens, quem vocês eram antes do mundo ditar quem vocês deveriam ser?

Leave a comment

Sou a Mari

Estudo e critico as formas como organizamos o mundo — e como essas estruturas atravessam gênero, relacionamentos, trabalho e infância.

Este é um espaço de reflexão crítica e de construção de outras possibilidades.