“Eu não serei interrompida.”
Disse Marielle Franco em seu último discurso, em março de 2018. Eu repito hoje, conscientemente, como decisão política: eu não serei interrompida. E farei o que estiver ao meu alcance para que nenhuma mulher seja. Nem na sua fala, nem nos seus direitos, nem no seu corpo, nem na sua sexualidade, nem na sua liberdade, nem na sua carreira, nem na sua maternidade, nem no seu direito elementar de ser e estar no mundo. Inclusive, vocês notaram a quantidade de mulheres sendo interrompidas nas suas carreiras no retorno da licença maternidade?
Interromper uma mulher é questionar sua autoridade, relativizar sua dor, tutelar suas escolhas, vigiar seu corpo, domesticar sua ambição e infantilizar sua liberdade. É, além de tudo isso, uma forma de manter intacta uma ordem que historicamente definiu quem pode ocupar o centro e quem deve se contentar com as margens. Quando uma mulher é interrompida, o que se protege é a hierarquia.
Nós chegamos até aqui porque outras enfrentaram a interdição formal da cidadania, a exclusão do voto, o confinamento doméstico, a negação da autonomia econômica e intelectual, a exploração descabida laboral no ambito público e no privado. Nada do que temos foi concedido por gentileza; foi arrancado de estruturas que sempre se beneficiaram do nosso silêncio. A tradição feminista nos ensinou que a opressão não é apenas um comportamento individual, mas uma engrenagem social, cultural e econômica que se reproduz inclusive quando parece invisível.
O patriarcado não é uma abstração distante. Ele opera nas piadas que são toleradas, na promoção negada, na sobrecarga naturalizada, na violência minimizada, na culpa distribuída às mulheres quando o sistema falha com elas. Ele se infiltra como um parasita e se perpetua como costume. E o medo da exclusão, da violência e do descrédito segue sendo uma das tecnologias mais eficazes de manutenção dessa ordem.
Por isso, quando digo que não serei interrompida, não falo apenas de mim. Falo de uma recusa coletiva. Recusa a aceitar que nossas vozes sejam mediadas. Recusa a agradecer pelo mínimo. Recusa a negociar o direito básico de existir como sujeito pleno. Precisamos umas das outras não como consolo, mas como estratégia histórica. Solidariedade entre mulheres é condição de transformação estrutural. Precisamos estar únidas, queridas mulheres, para que nenhuma de nós seja interrompida em nossas vidas, como Marielle, num país onde os homens matam 4 de nós por dia.
Por isso há algo que precisa ser dito com clareza: essa transformação não é tarefa exclusiva das mulheres.
Homens, este não é um convite para aplausos, homenagens protocoladas ou discursos sensíveis no mês de março. É um chamado à ação concreta. Interrompam outros homens quando eles interromperem mulheres. Recusem participar de ambientes onde a violência é relativizada. Questionem privilégios que sempre pareceram naturais. Dividam poder, tempo, cuidado e recursos. Revisem práticas no trabalho, em casa, na política. Não como favor, mas como responsabilidade histórica.
Se a interrupção sempre foi um instrumento de controle, a escolha de não interromper, e mais do que isso, de sustentar a voz das mulheres é um ato político.
Eu não serei interrompida.







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