Para onde foram as mulheres?!

Em 2025, apenas 23% dos advogados que atuaram na Suprema Corte do Reino Unido eram mulheres, percentual menor do que no início da corte, em 2009. No FTSE 250, a presença feminina em cargos executivos caiu nos últimos anos, chegando a cerca de 12%. Nos Estados Unidos, relatórios recentes continuam mostrando sub-representação feminina em todos os níveis de liderança, especialmente no C-level. Analisando estes número não sobram dúvidas, estamos presenciando uma regressão feminina de espaços de poder e influência.

Isso acontece ao mesmo tempo em que mulheres seguem altamente qualificadas, majoritárias em diversas formações universitárias e presentes nas camadas intermediárias das organizações. O foco precisa sair do acesso inicial e se concentrar na permanência e na progressão até os espaços de decisão.

Em “O X da Questão” (https://amzn.to/4tdfSB1), eu parto justamente desse ponto: cultura organizacional não é um tema comportamental superficial, é um tema estrutural. Ela define critérios de legitimidade, determina quais estilos de liderança são reconhecidos como estratégicos, estabelece quem pode errar, quem é promovido e quem é considerado “perfil de sucessão”.

Quando a presença feminina diminui conforme o poder se concentra, estamos diante de um desenho institucional que ainda opera segundo parâmetros historicamente masculinos ➡️ Sistemas reproduzem aquilo para o que foram configurados.

Existe uma tendência confortável de atribuir esses dados a escolhas pessoais ou à ideia de que “o tempo ajustará”. A literatura organizacional mostra o contrário: sem revisão ativa de critérios, estruturas mantêm seus padrões de seleção, e estes padrões de poder raramente se alteram espontaneamente.
A ausência de mulheres nos espaços decisórios não é apenas uma questão de representatividade simbólica, ela impacta a qualidade das decisões, a leitura de risco, a inovação e a sustentabilidade. Homogeneidade reduz amplitude estratégica.

A pergunta “para onde foram as mulheres?” não aponta para uma fuga, mas para um funil, e funis são construídos. Ou seja, não é uma evasão espontânea, é uma redução sistemática ao longo do percurso. E se há redução consistente em determinado ponto da estrutura, isso significa que existem regras explícitas ou implícitas operando ali.

Se queremos ambientes realmente robustos e sustentáveis, precisamos discutir menos a performance individual feminina e mais os critérios que continuam definindo quem é considerado liderança legítima. É exatamente essa a provocação central de “O X da Questão”: não basta incluir mulheres na base; é preciso revisar a arquitetura do poder.

Dados e foto da matéria: https://lnkd.in/d9yamSYy

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Sou a Mari

Estudo e critico as formas como organizamos o mundo — e como essas estruturas atravessam gênero, relacionamentos, trabalho e infância.

Este é um espaço de reflexão crítica e de construção de outras possibilidades.