O recente pacto contra o feminicídio, lançado em Brasília, revela um problema recorrente nas políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero: a incapacidade de romper, no nível simbólico, com a lógica que sustenta o próprio fenômeno que se pretende combater. Ao convocar homens ao centro da narrativa como protagonistas, heróis ou linha de frente, o pacto incorre num erro estrutural. Não desloca o eixo do poder; o reorganiza.
O feminicídio é a expressão extrema de uma estrutura de dominação de gênero que organiza papéis sociais, distribui poder e naturaliza a posse do corpo e da vida das mulheres. Qualquer política que evite nomear essa assimetria corre o risco de operar apenas no plano simbólico, produzindo adesão discursiva sem implicação real.
Quando homens são chamados a “liderar” o enfrentamento ao feminicídio, a mensagem implícita é clara: a solução continua passando pela ação masculina. Ainda que bem-intencionada, essa formulação reforça a ideia de que os homens permanecem como sujeitos centrais da transformação social, enquanto as mulheres seguem como objeto de proteção, não como produtoras de sentido, diagnóstico e direção política. Isso não rompe com o patriarcado, e sim mantém sua gramática fundamental.
Há uma diferença substantiva entre convocar homens à responsabilidade e colocá-los novamente no centro. Responsabilizar implica reconhecer privilégio, revisar padrões de socialização, abrir mão de autoridade simbólica e aceitar deslocamento. Centralizar implica o oposto: reafirma protagonismo, oferece reconhecimento moral e preserva a posição de sujeito universal. O pacto, tal como apresentado, aproxima-se muito mais da segunda lógica.
Esse enquadramento ajuda a explicar a reação social observada: a adesão acompanhada de ressalvas. “Precisamos acabar com o feminicídio, mas…”, e então surgem as falsas denúncias, a simetrização da violência, a tentativa de diluir o problema em conflitos genéricos. Ao não nomear o patriarcado como estrutura de poder, o pacto permite que homens concordem abstratamente com o fim da violência sem se reconhecerem como parte do sistema que a produz.
O risco mais sério é a consolidação de um patriarcado atualizado, institucionalmente aceitável, que se apresenta como aliado das mulheres sem questionar a própria centralidade masculina. Um patriarcado que condena a violência extrema, mas preserva as estruturas cotidianas de dominação. Que se mobiliza simbolicamente, mas resiste a mudanças profundas nos modos de socialização, nos afetos, na distribuição de poder e na escuta.
Combater o feminicídio exige a coragem política de retirar os homens do centro da narrativa e colocá-los no lugar que efetivamente precisam ocupar: o da corresponsabilidade crítica, não o do protagonismo moral. Sem isso, continuaremos produzindo políticas que tranquilizam consciências, mas não transformam estruturas.








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